Finanças Sustentáveis

fs na mídia

Questão climática, um dos maiores desafios

05/06/2008
Victorio Mattarozzi e Cássio Trunkl*

Depois de cerca de duas décadas de lenta maturação, a começar das primeiras referências ao desenvolvimento sustentável no âmbito da ONU nos anos 1980, o conceito de sustentabilidade vem se difundindo pelo ambiente de negócios e a opinião pública mundiais. Uma das razões é que a preocupação com os efeitos das emissões de gases de efeito estufa sobre o clima deixou de ser exclusiva de especialistas e ativistas para ganhar crescente espaço na mídia, sensibilizando amplos segmentos da sociedade para o problema dos limites naturais do crescimento econômico.

Apesar da maior consciência sobre esses limites, estudos apontam para a necessidade dos setores empresarial e financeiro avançarem na avaliação dos impactos das mudanças climáticas nos negócios. Um desses estudos revela que o risco climático é o mais desprezado pelos bancos. Elaborado pela rede americana formada por investidores e organizações ambientalistas – CERES, o relatório analisou 40 dos maiores bancos de capital aberto do mundo, recomendando ao setor financeiro incorporar as mudanças climáticas como prioridade em suas estratégias de governança empresarial e prestar mais informações sobre os riscos associados a essa questão.

Além do setor financeiro, outros estudos recentes concluem que as empresas também não estão preparadas para responder aos riscos financeiros associados às alterações do clima. Um desses estudos é o da Bolsa Mercantil de Chicago, realizado entre profissionais de finanças de empresas americanas e canadenses. Eles afirmaram que nem ao menos tentam avaliar os impactos do clima em suas empresas, mas, por outro lado, acreditam que terão que mudar seus modelos de negócios para poder lidar com as mudanças do clima e suas conseqüências. Há ainda o relatório divulgado pela consultoria Ernst Young que classificou a questão ambiental como um dos dez maiores riscos aos negócios em escala mundial. O estudo abrangeu doze dos mais importantes setores de atividades, entre os quais o automobilístico, petróleo e gás, serviços públicos e financeiros. Esse destaque da questão ambiental é devido aos crescentes desafios relacionados ao meio ambiente, como, por exemplo, a novos hábitos de consumo e a regulamentações criados para fazer frente às mudanças climáticas.

Algumas iniciativas, porém, já estão sendo adotadas para fazer frente a esses novos desafios. No início deste ano, três das maiores instituições financeiras internacionais, Citibank, JP Morgan Chase e Morgan Stanley lançaram os Princípios do Carbono. Esses princípios visam ao aprimoramento da gestão dos riscos socioambientais e financeiros decorrentes das mudanças climáticas no financiamento e implantação de projetos de geração de energia nos Estados Unidos. Essas instituições afirmaram que a necessidade de criação dos Princípios do Carbono deveu-se aos riscos que o setor americano de energia enfrenta pelas incertezas quanto às políticas públicas para mudanças climáticas.

Aqui no Brasil há também uma iniciativa pioneira do setor financeiro para lidar com os desafios associados às mudanças do clima. Trata-se do Fundo Brasil Sustentabilidade (FBS) do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que irá investir em projetos que visam a combater o aquecimento global e reduzir as emissões de gases do efeito estufa, no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Quioto. Segundo informações da empresa gestora do FBS, serão aplicados critérios para avaliar os impactos da questão climática nos projetos nos quais o fundo investir.

Ao enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas, algumas instituições financeiras e empresas já vêm alterando seus modelos de negócios de modo a se beneficiar tanto pela criação de novos produtos, quanto pela redução de seus riscos financeiros e de reputação. Um novo ambiente de negócios está sendo criado a partir do foco na sustentabilidade e os exemplos de estudos e iniciativas aqui apresentados podem servir de orientação para as organizações que ainda não perceberam ou não investiram em seu potencial.

Jornal Gazeta Mercantil

Publicado na página D4 do Suplemento de Meio Ambiente.

*Sócios-diretores da consultoria Finanças Sustentáveis e autores do livro Sustentabilidade dos Negócios no Setor Financeiro

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