Finanças Sustentáveis

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Mudança do clima já altera o ambiente de negócios

Setor financeiro no Brasil tem novos desafios

12/06/2007
Victorio Mattarozzi e Cássio Trunkl *

Os últimos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU ganharam uma ampla cobertura da mídia e a preocupação com o aquecimento global virou tema de conversa entre a maioria das pessoas. Isso provavelmente porque os trabalhos científicos apresentados pelo IPCC comprovam, com alto grau de confiabilidade, que a atuação humana é responsável pelo aquecimento do planeta e conseqüente alteração do clima e também porque de algum modo todos nós já sentimos os efeitos dessa mudança no nosso cotidiano.

O relatório do IPCC que trata das alternativas para combater os efeitos das mudanças climáticas afirma que a sociedade já possui os instrumentos para controlar o aquecimento global, apontando o investimento necessário, as metas de mitigação e o que já é possível fazer. O IPCC diz também que todos os setores da economia têm de agir e coloca um novo desafio ao setor financeiro: avaliar o impacto das mudanças climáticas em seus negócios, minimizando riscos e oferecendo aos seus clientes meios de manterem-se competitivos em um mercado com crescentes exigências quanto à preservação do planeta. Nessa direção, algumas instituições financeiras já estão adotando iniciativas pioneiras visando aperfeiçoar suas ferramentas de análise de riscos e gerar novas oportunidades de negócios.

Dentre essas iniciativas do setor financeiro destaca-se o programa anunciado recentemente pelo Citibank, que irá direcionar US$ 50 bilhões para lidar com as mudanças climáticas nos próximos 10 anos, por meio de investimentos e financiamentos destinados aos seus clientes dos setores de energias alternativas e de tecnologias limpas. As medidas incluem também assessoramento aos clientes em riscos e oportunidades decorrentes das mudanças climáticas, investimentos para controlar os próprios impactos ambientais do banco e seu engajamento no desenvolvimento de regulamentação internacional para reduzir as emissões dos gases do efeito estufa e estabelecer transparência e estabilidade ao mercado.

Ao anunciar essa nova e relevante iniciativa, o Citi dá mais um passo na incorporação da sustentabilidade em seus negócios. O banco, por exemplo, liderou o processo de lançamento dos Princípios do Equador em 2003 e seu processo de revisão no ano passado, criou política específica para o setor florestal e oferece produtos e serviços com foco socioambiental. Charles Prince, presidente e CEO do Citi, afirmou: “o programa de amplo alcance que nós estamos anunciando hoje não é uma lista de desejos, mas um plano realístico e viável que atende a uma necessidade crítica global e responde a uma oportunidade emergente de investimentos”. Ele acrescentou que “onde nós acreditamos ter essa oportunidade são o meio ambiente e o clima, que trazem um desafio significativo para o mundo, a economia global e os clientes e requerem ação efetiva”.

O programa do Citi segue na direção apontada pelo estudo realizado no início deste ano pelo UBS Wealth Management, que detalha como as empresas podem ser afetadas pelo aquecimento global e quais os passos elas podem dar para compensar os riscos. O estudo do UBS, intitulado “Climate Change: Beyond Whether”, detalha para os investidores as principais oportunidades e riscos de investimentos por setor da economia. Ele revela que os investidores que buscam incorporar os riscos e as oportunidades decorrentes das mudanças climáticas em suas carteiras têm diversas alternativas, abrangendo estratégias de investimento que incluem a redução da participação em setores e empresas que são altamente emissores de carbono e que têm pouco potencial de adaptação a novas tecnologias; investimento em empresas que produzem ou consomem energia renovável e de baixa emissão de carbono; investimento em fundos temáticos com foco específico na mitigação das mudanças climáticas e investimento em fundos ou em índices com critérios de avaliação socioambiental e de governança.

O estudo do UBS aponta alguns riscos decorrentes das mudanças climáticas que as companhias irão enfrentar: maior regulamentação, crescente perda de ativos por desastres naturais, queda de faturamento e danos à reputação. Duas grandes categorias de oportunidades são detalhadas no estudo do UBS: produtos e processos que sejam mais eficientes energeticamente e o desenvolvimento de fontes de energia renováveis ou de reduzida emissão de carbono. Aqui vale mencionar o exemplo da General Electric, cuja linha de produtos com preocupação ambiental - Ecomagination - é a que mais cresce na empresa. Lorraine Bolsinger, vice-presidente dessa divisão da GE, afirmou: “Não fazemos filantropia. Mais do que uma campanha de marketing, Ecomagination é uma séria estratégia de negócios”.

Os resultados apresentados pelo IPCC, as iniciativas do Citi e as alternativas de investimento apontadas pelo estudo do UBS são referências para que o setor financeiro enfrente o desafio que as mudanças do clima impõem: incorporar os riscos e as oportunidades decorrentes dessas mudanças. A instituição financeira que desenvolver uma vantagem competitiva nessa questão estará mais bem posicionada para redefinir sua estratégia de negócios e ampliar seu mercado.

Gazeta Mercantil

Publicado na página B2 do caderno Finanças & Mercados.

* Sócios-diretores da consultoria Finanças Sustentáveis e-mail: contato@financassustentaveis.com.br

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