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Mais negócios com um certo tom verde

*Sustentabilidade no Setor Financeiro* - Victorio Mattarozzi e Cássio Trunkl. Ed. Senac. 160 págs. R$ 35

08/01/2009
João Carlos de Oliveira

A equação parece simples: à medida que a noção de que o aquecimento global provocado pela ação do homem ganha mais força, eleitores e consumidores passarão a exigir mais ação e compromisso dos governos, das empresas e, claro, do sistema financeiro.

Mesmo agora, as medidas adotadas pelos governos dos países centrais para reduzir o tamanho e o tempo de duração da crise buscam, ao menos no plano retórico, não ferir a agenda de combate às mudanças climáticas. É sintomático, por exemplo, que o debate sobre o auxílio do governo americano à sua indústria automobilística tenha passado pela adequação dos carros fabricados à nova realidade e exigência ambiental do planeta. Sinal dos tempos.

Assim, espera-se, a consciência ambiental da população empurrará governos, empresas e bancos para melhores práticas, até por questão de sobrevivência. No setor financeiro, tudo se passaria como se a adesão a essa agenda acabasse sendo uma imposição da realidade que, depois, é incorporada à política e ao DNA dos bancos, passando pela definição da missão da instituição, pela articulação e definição das políticas de crédito e de relacionamento com fornecedores e com clientes, bem como pela formulação dos produtos financeiros que estarão disponíveis na prateleira.

Em "Sustentabilidade no Setor Financeiro", os autores apresentam uma extensa pesquisa sobre as melhores práticas socioambientais de instituições financeiras, no Brasil e no mundo. São descritos casos de sucesso, entre produtos e políticas, do Itaú, Bradesco, Real, Unibanco, BNDES, Triodos, Rabobank, Citi, JPMorgan, HSBC, ABN Amro e ING, entre outros.

Mattarozzi e Trunkl, sócios na consultoria Finanças Sustentáveis, têm vasta experiência no mercado financeiro. Em 2003, também por influência de Mattarozzi, então funcionário da área de mercado de capitais, o Unibanco foi a primeira instituição brasileira a aderir aos Princípios do Equador - documento internacional que tem por base as políticas do Banco Mundial, de adesão voluntária, pelo qual as instituições financeiras se comprometem a condicionar a concessão de financiamentos a projetos (hoje, de valor mínimo de US$ 10 milhões) a uma série de exigências socioambientais. A decisão do Unibanco estimulou a adesão do Itaú, Bradesco e Banco do Brasil.

O Real ABN Amro e o HSBC eram signatários desde o começo por que suas matrizes no exterior estavam entre as dez instituições promotoras da redação dos princípios. No livro há casos, comparações e descrição de estratégias. Fica claro, por exemplo, que Bradesco, Real e BNB desenvolveram estruturas voltadas para a sustentabilidade baseadas em áreas distintas dessas organizações. No Real, a incorporação se deu pela análise de risco socioambiental na área de crédito; no Bradesco, pela área de responsabilidade socioambiental; no BNB, pela área de microfinanças. O importante, consideram os autores, é que essas estruturas sejam flexíveis e que, aos poucos, "tomem" a totalidade da instituição.

Com apresentação de Fabio Barbosa, principal executivo do banco que, no Brasil, virou sinônimo de sustentabilidade e que, agora, preside a Febraban, e com prefácio de José Eli da Veiga, que faz interessante diferenciação entre a noção de sustentabilidade macro e microeconômicas, o livro tem o mérito de mostrar que os bancos estão se engajando nessa causa de maneira crescente.

É igualmente positivo que o sistema comece a enxergar de forma diferenciada - como um risco menor - as empresas que têm melhores práticas. Em resumo, deveriam pagar juros menores, o que nem sempre é verdade. Afinal, o valor para o acionista nada mais é do que a perspectiva de lucro futuro trazida a valor presente. Ou seja, negócios sustentáveis no sentido de longevos, em tese, são bons para os acionistas e representam menos risco para quem está emprestando os recursos para suas operações.

Contudo, embora se compreenda a necessidade de transformar a preocupação ambiental em um procedimento, não deixa de soar estranho que se considere um caminho, qualquer que seja e por mais correto que pareça, como inevitável. Um livro deve ser também um instrumento de persuasão, de sedução e de conquista. Mas quando se acha que uma opção é inexorável, deixa-se de argumentar o motivo dessa avaliação, e o que é inevitável ou não vira apenas uma questão de fé ou de julgamento prévio. A sustentabilidade, por certo, não deve estar associada a essa crença, por que a contenção do aquecimento global não depende de fé, mas de uma ação persistente e inédita, que, diga-se, ainda não está claro se a humanidade saberá construir e levar adiante. De todo modo, iniciativas tomadas por empresas importantes podem estimular a discussão de alternativas para a resolução de problemas ambientais, de indiscutível relevância social.

Jornal Valor Econômico

Publicado na página D8 do Caderno Eu & Investimentos no dia 8 de janeiro de 2009.

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