Finanças Sustentáveis

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A sustentabilidade nas instituições financeiras

13/07/2007
Victorio Mattarozzi e Cássio Trunkl *

Terminou recentemente o período de audiência pública para revisão dos critérios de seleção de empresas que irão compor a terceira carteira de ações do Índice de Sustentabilidade Empresarial – ISE da Bovespa, que entrará em vigor em 1º. de dezembro desse ano. Esse processo de revisão anual objetiva tornar ainda mais criteriosa a seleção de empresas que possuem boas práticas de governança corporativa e gestão socioambiental, aprofundando os temas mais relevantes da atualidade como, por exemplo, mudanças climáticas, direitos humanos e transparência de informações.

Especificamente para as empresas do setor financeiro, a revisão dos critérios do ISE trará novas questões que abordam a necessidade de reavaliação do perfil da carteira de crédito frente às mudanças do clima, a utilização de condicionantes socioambientais nos contratos de financiamentos, a ampliação da oferta de produtos e serviços financeiros com foco em sustentabilidade e abertura mais detalhada de informações ao público sobre a “pegada” ecológica das instituições financeiras. Cada uma dessas questões visa identificar, por exemplo, se essas instituições implantaram políticas para setores que mais afetam ou são afetados pelas mudanças do clima (florestas, petroquímico, hidrelétricas, agronegócio), se condicionam os financiamentos ao cumprimento de planos de mitigação de impactos socioambientais, se oferecem linhas de crédito específicas para projetos de energias renováveis e se divulgam as razões da rejeição dos projetos que analisaram no âmbito dos Princípios do Equador (conjunto de critérios para avaliação dos riscos socioambientais em operações de project finance).

Ao incorporar essas questões na avaliação de empresas, o ISE cumpre o seu papel de indutor na adoção de melhores práticas de sustentabilidade na estratégia de negócios das instituições financeiras. Nesse sentido, os quatro maiores bancos brasileiros – Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Unibanco, que integram a carteira do ISE desde seu lançamento, terão que comprovar que nos últimos doze meses avançaram na adoção dessas práticas em seus processos de tomada de decisão de negócios. O maior rigor dos critérios de avaliação dos bancos e o crescente número de bancos que estão abrindo capital deverão tornar as futuras revisões anuais do ISE ainda mais empolgantes. De fato, somente no 1º. semestre desse ano, cinco bancos passaram a ter suas ações listadas na Bovespa e outros cinco bancos têm ofertas públicas de ações sendo analisadas pela Comissão de Valores Mobiliários – CVM. Esses dez bancos estreantes deverão a aprimorar suas práticas de governança corporativa e gestão socioambiental, buscando equiparar o peso das metas de desempenho socioambientais às metas econômico-financeiras e incluir suas ações no ISE.

Algumas instituições financeiras, reconhecendo a relevância da gestão dos riscos socioambientais em seus processos de análise e aprovação de crédito, solicitaram que a Serasa desenvolvesse critérios de avaliação desses riscos para as empresas tomadoras de crédito. Em uma primeira etapa, a Serasa lançará no dia 31 de julho o “Relatório de Responsabilidade Ambiental”, que será um importante instrumento para mensurar o comprometimento das empresas com as questões ambientais. Nos próximos meses a Serasa irá lançar um produto semelhante voltado à avaliação das questões sociais. Essa iniciativa da Serasa é um passo decisivo para a incorporação da sustentabilidade nos negócios, considerando que o crédito é um dos elementos que mais pode exercer o papel de indutor no desenvolvimento da gestão socioambiental das empresas.

Além do ISE e da nova iniciativa da Serasa, dois outros acontecimentos recentes sinalizam que as considerações socioambientais estão avançando no setor financeiro. No final de junho a Federação Brasileira de Bancos – Febraban deu início a uma série de eventos mensais para discutir o tema da sustentabilidade no setor, o primeiro deles foi para divulgar entre seus associados o manual da rede internacional de ONGs BankTrack “Do’s and Dont’s of Sustainable Banking” (O que fazer e não fazer em um banco sustentável). Lançado por essa rede que monitora as práticas socioambientais dos bancos ao redor do mundo, esse manual apresenta recomendações específicas do que eles deveriam fazer para tornarem-se sustentáveis. Também no final do mês passado, a International Finance Corporation – IFC anunciou que irá adquirir uma participação acionária no Banco Fibra no valor de US$ 20 milhões e que já aprovou um empréstimo no valor de US$ 30 milhões ao banco. Como ocorreu em situações semelhantes nas quais aportou recursos em outros bancos, a IFC deve exercer papel indutor no aprimoramento da gestão de riscos do Banco Fibra, que deverá incorporar a avaliação dos riscos socioambientais em suas decisões de crédito.

A partir da adesão em 2004 dos maiores bancos brasileiros aos Princípios do Equador, a intensidade da inclusão da sustentabilidade em suas estratégias de negócios vem surpreendendo favoravelmente. O lançamento do ISE no final de 2005, as ofertas iniciais de ações de pelo menos dez bancos médios nesse ano, o lançamento da avaliação social e ambiental pela Serasa e as iniciativas da Febraban e da IFC podem representar o início de uma segunda e importante etapa onde os bancos brasileiros de médio porte também passam a incorporar a sustentabilidade em seus negócios.

Gazeta Mercantil

Publicado na página B4 do caderno Finanças & Mercados.

* Sócios-diretores da consultoria Finanças Sustentáveis e-mail: contato@financassustentaveis.com.br

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