Finanças Sustentáveis

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Setor Financeiro: criando valor sustentável

30/06/2009
Victorio Mattarozzi e Cássio Trunkl*

Quando aplicado ao setor financeiro, o conceito de sustentabilidade não se limita às iniciativas de ecoeficiência e nem deve ser confundido com atividades de cunho social desenvolvidas pelas instituições. Ele remete à necessidade de incorporar a perspectiva sustentável à sua própria missão e estratégias, passando a adotar critérios socioambientais, além dos econômico-financeiros, nos processos de tomada de decisão de negócios. Significa analisar as empresas clientes com outros olhos, levando em conta os eventuais impactos socioambientais causados por suas atividades e a qualidade de sua gestão nesse sentido.

O papel do setor financeiro como indutor de práticas de sustentabilidade empresarial foi considerado estratégico, aliás, desde as primeiras discussões sobre desenvolvimento sustentável em nível global. Não é difícil compreender a força de persuasão das instituições detentoras dos recursos sobre aquelas que precisam tomá-los, quando são aplicadas restrições baseadas em critérios socioambientais.

No mercado brasileiro, alguns bancos, percebendo que questões socioambientais podem afetar a capacidade de pagamento de seus clientes, já passaram a adotar critérios nesse sentido em seus processos de análise de crédito. De alguma forma, a mesma preocupação também está presente em seguradoras, fundos de investimento e em operações financeiras diversas, como as fusões e aquisições. Existe hoje uma consciência crescente do papel da análise socioambiental em todas as estratégias do setor financeiro, inclusive na prevenção de riscos de reputação. As instituições financiadoras estão conscientes de que também podem ter sua imagem arranhada quando impactos causados por empreendimentos com os quais estão envolvidas vêm a público.

A percepção no Brasil da responsabilidade do setor financeiro com o desenvolvimento sustentável ainda está praticamente restrita ao universo dos maiores bancos, que já aderiram aos Princípios do Equador – conjunto de normas internacionais para o financiamento de projetos, pautado por critérios socioambientais. Mas os avanços também vêm ocorrendo em outros segmentos de negócios, como demonstram várias iniciativas. Entre elas, a adoção dos Principles for Responsible Investment (PRI) ¬também baseados em critérios socioambientais e de governança corporativa ¬– principalmente pelos principais fundos de pensão; o lançamento do Índice de Sustentabilidade Empresarial - ISE da Bovespa, que inclui somente empresas com boas práticas socioambientais e de governança; e a criação de fundos de investimento conhecidos como Socially Responsible Investing - SRI, que adotam critérios semelhantes na formação de suas carteiras. A partir do recém-lançado Protocolo Verde da Febraban, espera-se difundir, entre um número maior de instituições financeiras, o uso nos negócios de práticas em harmonia com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável.

Não resta dúvida de que essas iniciativas são recentes no país ¬– a maioria delas data dos anos 2000. Mas, por isso mesmo, as instituições que se anteciparem na adoção de políticas de sustentabilidade terão as maiores vantagens competitivas, sobretudo neste momento em que os alertas sobre o aquecimento global sensibilizam cada vez mais a sociedade na busca de soluções sustentáveis para o desenvolvimento econômico. Ao dar atenção especial às questões socioambientais, as instituições financeiras não estão apenas reconhecendo sua vulnerabilidade em relação aos impactos dessa natureza, mas tendo também a oportunidade privilegiada de desenvolver novos mercados a partir deles.

Parte do universo financeiro já percebe os benefícios que a adoção de uma perspectiva sustentável pode trazer aos seus negócios, dissolvendo a fronteira existente entre o tradicional objetivo econômico-financeiro e o não menos relevante objetivo socioambiental. Trata-se de uma mudança cultural em pleno curso entre várias das maiores instituições financeiras do mundo, marcando o início de uma nova e promissora era de conquistas no campo da sustentabilidade para o setor e para toda a sociedade.

Revista da Apimec

* Sócios-diretores da consultoria Finanças Sustentáveis e co-autores dos livros: “Sustentabilidade no Setor Financeiro: Gerando valor e novos negócios” – Ed. Senac; e “Sustentabilidade dos Negócios no Setor Financeiro: Um caso prático” – Ed. Annablume.
E-mail: contato@financassustentaveis.com.br

Publicado nas páginas 20 e 21 da edição do 2º. trimestre de 2009 da Revista da Apimec – Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais.

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