Finanças Sustentáveis

fs na mídia

Ponderando as externalidades

17/06/2010
Por Alexandre Hernandez e Victorio Mattarozzi*

O setor financeiro não está indiferente ao crescimento das preocupações socioambientais verificado nos últimos anos e tem procurado levar em conta essas questões na hora de conceder financiamentos para a implantação de novos projetos. Um dos principais marcos nesse sentido são os Princípios do Equador, lançados em junho de 2003 por um grupo de dez bancos mundiais. Trata-se de um conjunto de diretrizes que tem como base as políticas socioambientais do Banco Mundial e de seu braço de investimentos privados, a International Finance Corporation (IFC). É uma iniciativa voluntária do setor financeiro privado, que inicialmente se aplicava apenas a operações de financiamento de projetos de valor superior US$ 50 milhões.

Os Princípios do Equador representam um importante marco na direção da incorporação da sustentabilidade nos negócios do setor financeiro. Afinal, os bancos que aderem a esses princípios se comprometem a classificar o risco socioambiental associado aos projetos financiados, aplicando critérios para avaliar questões que envolvem direitos trabalhistas e de povos indígenas, conservação da biodiversidade, níveis de poluição e a necessidade de realização de consulta às populações afetadas pelos projetos, dentre outras práticas não menos importantes.

Vale destacar que, desde seu lançamento, o número de bancos que aderiram aos Princípios do Equador saltou de 10 para 67, grupo hoje responsável por praticamente todas as operações de project finance realizadas ao redor do mundo (cerca de 30% à época do lançamento). Os bancos brasileiros signatários são o Itaú-Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Alguns bancos internacionais que atuam no Brasil também são participantes desses Princípios, dentre eles HSBC, Santander e Citibank. Além disso, desde meados de 2006, os bancos signatários decidiram ampliar a aplicação dos Princípios do Equador. Desde então, passaram a ser utilizados no financiamento de projetos de valor superior a US$ 10 milhões, na atividade de consultoria financeira de projetos e em melhorias ou expansões de já projetos existentes.

A importância dos Princípios do Equador é indiscutível. Não é difícil compreender a força de persuasão das instituições detentoras dos recursos sobre aquelas que precisam tomá-los, quando são aplicadas restrições baseadas em critérios socioambientais. Os bancos signatários dos Princípios do Equador percebem os benefícios que a adoção de uma perspectiva sustentável pode trazer aos seus negócios, dissolvendo a fronteira existente entre o tradicional objetivo econômico-financeiro e o não menos relevante objetivo socioambiental.

Vários desses bancos, incluindo os brasileiros, já analisam questões socioambientais em outras modalidades de operações financeiras, não se limitando somente ao financiamento de projetos sujeitos aos Princípios do Equador. Ao dar atenção especial às variáveis socioambientais, esses bancos não estão apenas reconhecendo sua vulnerabilidade em relação aos impactos dessa natureza, mas tendo também a oportunidade privilegiada de desenvolver novos mercados a partir deles.

Ao se anteciparem na adoção de diretrizes de sustentabilidade em suas estratégias de negócios, essas instituições terão as maiores vantagens competitivas, sobretudo neste momento em que os alertas sobre o aquecimento global sensibilizam cada vez mais a sociedade na busca de soluções sustentáveis para o desenvolvimento econômico. Trata-se de uma mudança cultural em pleno curso entre várias das maiores instituições financeiras, marcando o início de uma nova e promissora era de conquistas no campo da sustentabilidade para o setor e para toda a sociedade.

Revista Envolverde (edição eletrônica)

*Alexandre Hernandez é sócio-diretor da KEYASSOCIADOS e Victorio Mattarozzi é sócio-diretor da Finanças Sustentáveis.

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